domingo, 15 de maio de 2011
Que foi que eu fiz? (O dilema –parte 2)
- E aí, por que é que tu tá nessa?
- nada não.
- ninguém tá aqui por nada
- mas eu não fiz nada mesmo
- então tá, já que tu não fez nada por que é que te trouxeram?
- um 121e um 157
- e isso não é nada?
- me bolaram numa roubada
- tá
- é verdade, tava no lugar errado e na hora errada, dancei.
- dançou mesmo, tu sabe que tirar a vida de alguém traz um monte de nego atrás de tu né?
- to sabendo, mas é que eu sou inocente mesmo.
- tá.
- mano, eu não tenho culpa se os dois caras que tavam na minha área se acabaram bem perto lá da boca e o outro que tá vai não vai, também.
- hum! Tá começando a virar a placa
- tá não, eu sou inocente.
- valeu
- mano, os carinhas eram do outro lado do morro, tavam na minha área, os home acharam eles apagados, eu tava de bobeira, dancei
- sei
- te digo uma coisa, quando o doutor chegar eu vou falar direitinho com ele. Não vou tocar piano de novo não
- de novo?
- é já puxei uns cinco anos por um 171
- e
- e fugi
- e aí?
- me pegaram agora e tão me colocando esse 121 em cima
- e tu ainda diz que não fez nada?
- é eu tô te aplicando essa, tô fora é só o doutor chegar e eu vou sair limpinho.
- tomara
- é claro, a rapeize do pedaço já tá se juntando pra dizer que eu tava no futebol, to limpo
- legal, cadê o doutor que vai te tirar?
- sei lá, to esperando o dindin chegar pra poder contratar
- e quem vai trazer o dindin
- a rapeize
- ih, sujou!!!!
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Que foi que eu fiz? (O dilema –parte 1)
- Seu doutor juiz, eu não fiz nada disso que tão me acusando não.
- Então, porque você foi preso?
- Eu não nasci pra calejar as mãos doutor, trabalho de escravo? To fora. Olha só pras minhas mãozinha, tudo lisa como seda.Foi culpa da dona Maricotinha, essa mulher me detesta há muito tempo.
- Sabe, ela mora lá na minha rua e vive olhando os pessoal que passa por lá em frente da casa dela.
- E...?
- E se fosse só isso tava bom, né? O negócio é que a casa dela fica ao lado do bar do Zé Português.e toda vez que eu lá , tinha uma história: era da Zefinha “Quebra Telha”, do “seu” Arnaldo Pinguço”, do Botija, da dona Santinha, do “Caixa Preta” , do Osvaldinho “Bafo de Onça”, só gente fina!
- E daí?
- Aliás, foi por causa do Osvaldinho que me envolveram nessa “roubada”.Nós tava jogando carta, coisa que gosto de fazer de vez em sempre, e quando o Osvaldinho passou na frente da casa dela, a fuleira não foi dar com a língua nos dentes que eu tinha um az de ouro na manga direita e um az de copas na manga esquerda? Isso é minha estima, só recordação, nunca, nunquinha que eu uso elas.
- Humm!
- É sério, doutor! Quando o Caixa Preta, o dono da banca, soube disso me colocou na parede pra me dar um sacode. Eu é que não ia ficar na frente da peixeirona do Osvaldinho na minha direção, também não é minha culpa que o tresoitão tava cheinho e justamente no bolso da minha calça. Naquela arrumação de pula pra lá e pula pra cá, ele caiu e disparou, só que acertou o Osvaldinho no meio da testa, o Caixa Preta no relógio-a bombinha dele parou na hora-e o “seu” Arnaldo na perna de apoio.
- Mas...
- Seu doutor juiz, to falando pro senhor o mais forte dos babado: eu sou inocente. Esses 157 que me jogaram em cima é pura forçassão de barra da D. Maricotinha que sempre quis me pegar numa fria desde que a gente teve um caso.
- Entendo...
- Eu só saio dessa por sua causa. E aí doutor juiz, o que é que o senhor decide?
sexta-feira, 8 de abril de 2011
A Cabrocha da Gafieira

Meu primo Mário era uma daquelas figuras que chamava a atenção por onde passava. Em plena época da ditadura militar ele conseguia ser um pedreiro, negro, alto com quase um metro e noventa, bigodinho a La Clark Gable, cabelo rapado bem baixinho e que se vestia com extrema elegância devido à sua postura. Unhas feitas, sempre com uma sacola tipo embornal – lembrança da infância na roça, onde carregava suas roupas de trabalho e ferramentas e trocava de lugar quando estava no serviço. Dá pra imaginar a cena? É esse era o primo Mário.
Certa vez, contava a minha avó, ele chegou em casa pálido como uma cera e com os olhos arregalados de puro susto. Todos ficaram preocupados, pois se tinha alguém que não tinha medo de nada era o primo Mário. Providenciaram logo um copo d’água e uma cadeira e todos ficaram ao seu redor para saber o que havia ocorrido: Como era de costume, às quintas-feiras, ele tinha ido à uma gafieira e desta vez fora numa em Botafogo que um colega havia indicado. Depois de umas e outras, puxou uma cabrocha para dançar e entre um intervalo e outro, pois enquanto estavam dançando o fiscal não deixava eles se falarem tampouco trocarem quaisquer carícias mais ousadas, a moça deu a entender que havia gostado dele.
Muito sapeca o primo Mário logo mostrou seus dotes de dançarino galanteador e pra encurtar a história pediu para levar a moça em casa. Pedido aceito deu o braço e todo empolgado andava com o seu troféu todo orgulhoso pelas ruas estreitas daquele bairro que ele conhecia muito pouco. Entra rua, sai rua e ele empolgado com a conversa não percebeu onde estava. Ela então disse-lhe que aquele portão grande era a entrada da sua casa e dali não poderia ele entrar por causa do pai dela, etc. e tal.
Para tentar roubar ao menos um beijinho ele prometeu que viria buscar a capa de chuva que lhe emprestara durante o trajeto, pois chuviscava uma garoa bem fria. Diante da concordância ele partiu para o ato, o qual foi prontamente travado por um par de mãos em seu peito e um pedido delicado de amanhã nos veremos à tarde depois de seu trabalho.
O dia havia passado como um raio e quando bateu a sirene ele foi o primeiro a se arrumar e perfumar como em nenhum outro dia igual. Percorreu o caminho que fizera na noite anterior até aquele portão pomposo. Entrou meio desconfiado e qual não foi sua surpresa ao descobrir que entrara no Cemitério de Botafogo; já com as pernas bambas, avistou a sua capa de chuva em cima de uma tumba ao lado de uma senhora que estava acabando de trocar umas flores naquele túmulo tão bonito. Meio sem jeito, tentou argumentar com a senhora algo para puxar conversa quando observando o retrato póstumo eis que era igual ao da cabrocha que passara a noite anterior dançando. A senhora era a mãe dela e disse-lhe que a filha havia morrido num acidente de carro quando voltava de uma festa de aniversário alguns anos antes e que ele fora já a terceira pessoa a passar pelo mesmo constrangimento. O pavor tomou tanto conta do Don Juan de plantão que nem se lembrou mais da capa de chuva e só queria chegar em casa.
Depois de levar uma pequena bronca de meu avô e agüentar a gozação dos meus tios por sua namorada do outro mundo, a minha avó pediu para que nos reuníssemos e fizéssemos uma oração pela alma daquela moça que vagava sem rumo.
Foi uma lição e tanto para o primo, um aprendizado a todos nós e uma história de não se esquecer tão cedo.
segunda-feira, 21 de março de 2011
O Ringue
O quimono estava pesado pelo suor da ansiedade e as gotas vertiam da testa escorrendo pelo rosto, pescoço e molhando o tecido, o olhar atento e a audição aguçada não deixaram as instruções do corner no vazio. O adversário julgou erradamente que isto era sinal de fraqueza e este foi um erro fatal e prepotente. A conversa ao pé do ouvido do sensei lhe devolveu a calma necessária. A concentração nos pontos falhos, a experiência transmitida pelo mestre, as aulas práticas, as longas conversas sobre os diversos assuntos, as indicações e dicas passam como um turbilhão em frações de segundos. Quando o sinal do juiz é dado o tatame se transforma em um verdadeiro ringue em que dois adversários se confrontam. Vence aquele que tem atitude, destreza, experiência, sorte conjugada com habilidade do encaixe de um golpe ou contra-golpe certeiro e ele não havia pensado nisto quando resolveu que a luta estava ganha por causa da sudorese. Quando o contragolpe veio, o ar começou a faltar, a possibilidade de sair da imobilização era nula, a única solução foi bater nas costas e reconhecer que havia errado em seu prognóstico. O novo campeão estava mais do que preparado, ele vencera o maior de todos os adversários: o medo de si mesmo. O ringue voltava a ser tatame, os adversários companheiros de luta e os professores em mestres.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Te agradeço
Todo Poderoso Deus Pai, o Senhor conhece os lugares que foram quebrados no meu coração por falhas de outras pessoas na minha vida. Confesso que às vezes fico desiludido com o caminho do Senhor por causa das falhas e inconsistências do seu povo. No fundo eu sei, querido Pai, que as falhas deles não significam que são suas falhas, mas é difícil não sentir isso. Chame-me para perto do Senhor. Dê-me um coração mais gracioso para com aqueles que me desapontam, Ó Senhor. No Senhor coloco minha confiança às vezes é fácil ficar nervoso sobre algo e depois perder meu zelo no dia seguinte. Ou, por outro lado, perco o rumo e cometo danos terríveis. Querido Pai, por favor, dê-me a sabedora para enxergar o que é melhor, correto e verdadeiro. Santo Deus quero Lhe servir e honrar e abençoar outros em seu nome. Eu não compreendo porque o Senhor nos ama tanto. Nós o rejeitamos, desprezamos, ignoramos, blasfemamos e procuramos colocá-lo na periferia das nossas vidas. Mas vez após vez, o Senhor está presente para ouvir nossos clamores e nos salvar de nós mesmos. Perdoe-me, Pai, por não Lhe reverenciar mais. Perdoe-me por não reconhecer a majestade de Jesus e total humildade dele para se sacrificar para mim. Pai, obrigado! Obrigado por ser paciente, sacrificial e longânimo comigo. Obrigado
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
FOGO!
Quando alguém gritou a notícia foi igual à rastilho, rapidinho tinha um monte de curiosos procurando de onde viera o grito. Era dona de casa de baby-doll feito de camisa de político, era ninfeta de shortinho aguçando a libido dos coroas, era marido com cara de sono chateado por ter sido acordado no meio da noite, era menino curioso se metendo no meio dos adultos e perguntando o que estava acontecendo, enfim bagunça geral. O fogo havia sido iniciado na casa da Nenê Pomba que, depois de ter tomado todas e mais algumas, dormira com uma vela acesa em cima da máquina de lavar roupa porque a sua energia fora cortada por motivos óbvios: falta de pagamento. A vela caíra em cima das roupas que seriam lavadas no dia seguinte, estas queimaram a máquina, que queimou a mesa da sala, que tinha outras roupas limpas esperando para passar, que queimaram uma parte do teto, que se alastrou para a cozinha e queimou o armário de comida, que queimou a frigideira cheia de óleo das batatas fritas dois dias antes, que queimou a mangueira da botija de gás que por sua vez lançou as labaredas de volta ao teto e este juntou-se ao do vizinho que ao sentir o cheiro de fumaça deu o aviso. O corre-corre era geral e o pessoal muito preocupado com a Nenê Pomba foi até lá e viram a coitada jogada em cima da cama sem nenhum esboço de reação. O Joca do Tiziu foi o primeiro a entrar no barraco, seguido pelo Mario Barata; ambos eram estivadores e tinham acabado de chegar na favela quando ouviram o grito. O Joca pegou a bêbada pelos pés e o Mário pelas mãos e lá se foram porta afora cheios de fumaça e rezando para nenhuma perna manca lhes cair na cabeça. Os baldes de água vinham sabe lá Deus de onde, a corrente foi formada tão rápido que quando os bombeiro chegaram só tiveram tempo para o rescaldo. A Nenê , desolada num canto, só falava no barraco que perdera, os vizinhos na sorte do fogo não ter se alastrado mais e os bombeiros por mais uma ocorrência com perdas somente materiais e de nenhuma vida. A favela respirava mais aliviada pelo susto e na cabeça de todo mundo só se passavam as dicas que o Tenente havia dado pela televisão em caso de incêndio nas favelas daquela periferia da cidade. Assunto para televisão e jornal da internet foi logo esquecido pelo sumiço de uma moça raptada na saída de seu prédio. Mas isso já é outra história...
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Lista Telefônica
Naquela tarde carregada de nuvens escuras e prestes a cair um temporal daqueles, parecia que estavam sendo explicadas todas as adversidades que a turma passava. Explico:
Éramos um grupo de estudantes e professores de Educação Física e alguns atletas de diversas modalidades que trabalhavam na organização de eventos esportivos lá pelos idos de 1980.
A turma se dividia em atividades pelos setores que eram necessários e convocava seus amigos e colegas para ajudá-los e assim aumentava a corrente, no final o que se via era uma turma de jovens brincando e aprendendo como organizar um evento.
Voltando à tarde.
Estávamos reunidos para mais uma reunião de coordenadores e esperávamos o diretor de marketing para a resposta sobre um determinado patrocinador quando ele entra na sala sisudo e sem dizer absolutamente nada entrou em seu gabinete e fechou a porta. O suspense foi geral e os risinhos tímidos eram entremeados por olhares de soslaio para o dito gabinete.
Com um sinal de dedos ele chamou o gerente financeiro e o de pessoal para dar a notícia. Ambos saíram do mesmo modo dele e entraram em suas respectivas salas. A tensão já estava no ar, quando sem que percebêssemos o diretor, ouvimos o som abafado de papel rasgado e o olhar de todos voltou para a sala de marketing e para uma lista telefônica rasgada ao meio de um só golpe por ele. O entalado de saliva foi geral e um friozinho na barriga não deixou que nós dissesse-mos uma palavra sequer até recebermos ordem de voltar no dia seguinte para novas instruções.
A cabeça de cada um ficou a mil e só se pensava o que seria do pescoço de alguém se ficasse naquelas mãos se o diretor estivesse enfurecido.
Dia seguinte, acalmado os ânimos ficamos sabendo da história: um patrocinador tinha desistido da empreitada em cima da hora quando já estava feito todo o planejamento do marketing e logos do evento. Graças a DEUS um outro cobriu a oferta e pudemos realizar nosso trabalho, não sem antes registrar o fato da lista rasgada.
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