quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Vai entender?



 

Os gritos vindos do banheiro não deixavam dúvida: o pequenininho estava com problemas !

O pai coruja que tudo gravava do mascote ficou sem entender depois da tradicional pergunta:

 – O que foi que aconteceu?

- o cocô foi embora...

- mas filho, o cocô tem que ir embora mesmo, ele é sujo.

- mas é meu. Eu quero de volta

- filho. A gente faz cocô , dá descarga e o cocô vai embora

- mas o meu não!

- o seu, o do papai, o da mamãe, o da maninha...

- o meu não!

- porque não?

- por que é meu. Eu quero de volta...

- Volta cocô. Cadê você?

- Ele foi embora, filho...

- Eu quero, eu quero...

- sabe pai, vou fazer outro...

- faz , mas ele vai embora também...

- Num vai ,não!

- Vai sim!

- e porquê?

- Já falei , o cocô tem que ir embora mesmo, ele é sujo.

- Mas é meu. Eu quero, é meu!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Agbara Dudu

                                                                            

Nos anos 80, toda  sexta- feira à noite era o dia da negrada se encontrar no pagode da Quitanda e depois esticar até Madureira onde  rolavam os ensaios do Bloco Afro Agbara Dudu na sua sede mais famosa ( Rua Ernesto Lobão, 44). Era época das famosas Noites da Beleza Negra, dos Ensaios de Rua Pré-Carnaval, dos Terreirões Senzala, enfim de uma fase de autoafirmação da Consciência Negra em seu apogeu. Era um verdadeiro desfile de figuraças e  tinha de tudo: do mais humilde faxineiro ao mais ilustre catedrático, fora os pretensos e posteriores políticos partidários de plantão. A minha comadre Vera Mendes era a cicerone- mor  de todo Terreirão e comandava com um jeito bem organizado, sem gritos ou estresses uma galera imensa em cada detalhe ( ela parecia ter um computador na cabeça, pois lembrava-se de tudo e de todos como a sua mãe – a Tia Maria).
                                                               
A casa relativamente pequena,  geminada, com  2 quartos, sala, banheiro e cozinha que dava pros fundos do terreno onde tinha um outro banheiro minúsculo usado pelos homens e onde rolava o famoso terreirão. Era a maior concentração de negões por metro quadrado que se tem notícia. Ninguém sabia explicar como com tanto calor que se faz no Rio a galera fazia questão de se apertar naquele espaço.                                                                                      
Num desses terreirões, um dia, aconteceu uma cena que me ficou gravada eternamente: Estávamos ensaiando para  participarmos de uma ala na  Escola de Samba Vila Isabel no Carnaval de 1988 e a rua estava literalmente lotada. Os atabaques e os outros instrumentos haviam sido colocados na parte da frente da casa e o som do vocal parte na rua , parte no quintal . Era um fuzuê de gente que ficava difícil de transitar na calçada, pois no meio da rua o saudoso Hugo Tobias coordenava as coreografias ora dos homens, ora das mulheres , até fazermos todos juntos. O pessoal da percussão também não ficava atrás e o sonzão agitava o tempo todo. A Alcinéia Martins se revezava com a Néia Ramos, o Rubinho do Afro e a Dinha. Até então eram músicas novas e antigas que todos sabiam de cor, mas uma delas levantava o povão e esta foi a cena que me impressionou. O Gabriel Lopes havia dado espaço pra outro percursionista que não me lembro quem era e  de repente a Alcinéia começou a cantar – “Arerê, Arerê rê ê ô , Agbara quando passa faz minha terra tremer...” , era o “hino” do Agbara. Gente que estava num bate papo voou para a rua, juntou –se quem tinha suas coreografias com quem sabia a letra, com quem estava na empolgação e até quem não sabia nada num burbulhão  e levantar e abaixar de corpos só, daí  uma expressão pode ser ouvida: - É o Gabriel quem está tocando, eu conheço essa batida! E era desse jeito mesmo até ele cansar de tocar e o povo de dançar.
 
                                                                     
Naquele dia nós extrapolamos ainda mais pois um visitante ilustre deu o ar da graça. Seu nome? Martinho da Vila. Dá pra imaginar a cena, antes de um carnaval que seria ganho pela Vila?
 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A dor de um Pai


Quando Davi perdeu seus filhos em luta interna da sua família o nome que ele mais falava era dor no coração, uma dor que não se explica não se descreve não se quer pra ninguém. DEUS quando nos deu o Seu único filho mostrou toda a sua dor quando os céus tornaram-se enegrecidos como a noite e quando Jesus disse: - Está consumado! A dor foi tanta que o véu do templo se rasgou de alto a baixo o véu tinha mais ou menos 18 metros de altura e 12 cm de grossura e que cavalos puxando o véu dos dois lados não podiam parti-lo. A narrativa no livro de Êxodo nos ensina que esse grosso véu era feito de material azul, roxo e escarlate e de linho fino torcido. O véu era a barreira que separava o homem da presença de Deus, pois somente 1 vez ao ano, uma única pessoa (o sumo sacerdote) podia entrar no santíssimo lugar e oferecer sacrifícios a Deus. Esse sumo sacerdote representava o povo diante de Deus. E agora quem faz isso? Nós e nossos pais por nós.
Dor que não sai da cabeça, do coração, que persiste e insiste em não sair mesmo que atenuada pela saudade da ausência. Tentar explicar? Como diz a poesia de Brunna Luisa “E dói toda vez que me lembro dele, é como se fosse uma ferida ainda aberta, um hematoma permanente. E mesmo que seja uma dor quase mortal, não consigo evitar minha mente de sempre remoer o passado. E me pego pensando em todo esse tempo longe dele, que me fez morrer aos poucos, perdendo o meu sentido, dia após dia. Pego aquela velha caixa de recordações e abro sobre a mesa, as fotos já perderam o brilho, e algumas coisas não fazem mais sentido. E diante disso, a dor me corrói novamente, em pensar que as memórias são tão vivas só para mim. Quando a vida faz suas surpresas, e leva as pessoas que amamos, o mundo fica sem cor, e não há substitutos ou tintas coloridas que possam resolver o problema. É quase como se a sua alma tivesse partido junto, levando a leveza do ritmo das batidas do seu coração. Algumas pessoas não entendem e nunca vão entender. Mas prefiro que seja assim, não me importo, é complexo demais para ser explicado. Mas, posso garantir, que nem tudo se refere ao passado, as vezes é só o meu jeito exagerado de usar as palavras”
Lembro-me que meu avô sempre orava pela manhã ao se levantar e muitas das vezes o ouvíamos clamar em um sussurro por cada um de nós e era nome a nome até chegar ao mais novinho. que memória ! Pois eram 9 filhos naturais e 6 de criação , cada um com mais dois filhos em média. Quando perdemos nosso tio Aroldo Santos ele me fez ver o quanto a aliança de um casamento faz com que as famílias se unam. Durante o velório, ficou quieto em um canto e ali permaneceu até o ato de sepultamento, quando ao sairmos da capela ele disse com voz firme sem gritar: - Vão vocês, eu não vou enterrar meu filho, a dor é muito forte, prefiro ficar com a minha última imagem dele brincando lá em casa! Como eu compartilhava da mesma opinião fiquei quieto ao seu lado até que todos voltassem. Esta cena me marcou demais e até hoje não consigo ir a um enterro (inclusive não fui ao dele).

Tempos depois também perdemos o meu primo César; ele ficou do mesmo jeitão quieto que pensei estar tramando alguma vingança sozinho por ser ex-policial, logo desisti da ideia quando ele e a minha tia Marlene reuniu-nos em família e decretaram que não haveria retaliações para ninguém e que um abismo chama a outro abismo. Quando pensamos em amenizar estas dores, protagonizei a cena que me marcou para o resto de minha vida: Meu primo Aroldinho perdeu seu filho de maneira trágica que chocou toda a família: o menino cordato e gentil,que tinha diversas amizades,era um exemplo para sua irmã e um excelente amigo para seus pares foi ceifado violentamente e cruelmente como um qualquer. Bem de longe, estando a milhares de quilômetros do fato pude sentir no coração a dor da perda. Até escrever estas linhas me dói e as lágrimas brotam nos olhos, mas DEUS é o Consolador e está no comando de tudo ainda que não concordemos ou aceitemos. Meu primo me deu uma lição: Apesar da dor da perda, ele ainda teve forças para escrever ao assassino e PERDOOU-O.
DOR curada com o AMOR de JESUS no coração. Não tenho mais palavras para expressar tamanho sentimento. 


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carece não!


Essa quem me contou foi o Dominguinhos, nosso garçon-mor no TJRO.

Lá em Xapuri no Acre iam, numa estrada empoeirada e na boleia de uma caminhonete, o Padre José e o Lascanheta – um cascateiro de mão cheia- quando o Padre José vira-se e diz:
- Olha lá uma agulha Lascanheta.
Ato contínuo o beato lhe responde:
-Carece de pegar não Padre José; tá com o fundo quebrado!


Garçon !





Essa é mais uma do Dominguinhos-nosso garçon -mor do TJRO.

- Garçon, tem uma mosca no meu prato!
- Isto é desenho do prato,doutor!
- Mas,tá se mexendo.
- É que é desenho animado em 3 D!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


A Igrejinha

Da igreja em si mesma eu não lembro muito bem, porque se entrei lá cinco vezes foi muito. Naquele tempo nós não tinhamos nenhuma religião a professar e se fôssemos perguntados a resposta era imediata: - Sou católico não praticante. Saída rápida para não dizer que era um  à toa que nem se preocupava ao menos de ir aos domingos na paróquia que ficava lá no alto do morro, bem no meião mesmo e com saída pra todo lugar: Buraco Quente, Quebra Braço, Quadra, Fundação, Associação. Terreirão, Brizolão (que não era conhecido ainda por esse nome , mas por Hotel Fantasma), enfim miolão da Comunidade.
As lembranças são dos muros já meio quebrados de tanto a gurizada pular em galera e ir soltando as pontas dos tijolos maciços utilizados para cercar a área.
Falando em área, dentro, no pátio , embaixo da Caixa d"água, que pra nós era enorme, fazíamos os nossos rachões inesquecíveis. Valiam qualquer coisa: desde ingresso pros bailes a Garrafas de Coca Cola (disputada a tapa, pois era raridade alguém conseguir uma). A birosca da D. Carmem ficava em um dos becos de passagem e a do Manoel num outro: eram os points de zoação depois dos jogos. Lembrei que uma vez quando estava jogando, fui dar um chute e o meu kichute, pra lá de velho, rasgou e no embalo peguei uma pedra do piso. A tampa do dedo foi pro vinagre na hora e pra tentar disfarçar a peia que seria quando chegasse em casa fomos direto pra praia (pra quem não está acostumado, a água salgada do mar é um santo remédio pra limpar feridas).
Queria era ver se toda vez quando havia rachão não saia um com o dedo ferido ou ralado em alguma parte; mas que era bom isso era. Eu ia pouco pra lá, meus primos eram mais assíduos por terem uma melhor ginga e flexibilidade maior do que a minha perna de pau, ou melhor , perna de garça (comprida e fina). O Pedro Paulo e o Chico faziam a festa na rapeize e se saísse briga logo a turma do "Deixa Disso" entrava em ação, diga-se treisoitão funcionando pra cima primeiro e apontado pro próximo engraçadinho metido a Bruce Lee.
Tempo bom em que ver o Pingo jogar era uma maravilha, parecia um maestro de tão sutil que tocava na bola; dois toques e o outro tava na cara do gol. Pena que ele se foi vencido pela branquinha e pelos rabos-de-galo da vida.
Minha última visita antes da mudança foi depois de uma apresentação no Brizolão e fui levar um material pra lá para a catequese dos pequenos. O portão estava aberto e entrei já com ares de despedida. Lembrei que apesar de não ser o meu local preferido,  ali era a área de lazer de muita gente e a válvula de escape de muito estressado, palco de várias guerras de nervos, algumas desilusões amorosas, muitas quermeses e o principal: Referência de todos.

Carta aberta a uma filha confusa

Filha,
No momento em que você estiver lendo esta carta, provavelmente eu não estarei ao seu lado. Chorei muito porque sei que o melhor para a sua vida é estar na presença de DEUS e com sua família. Estar debaixo de uma maldição não é nem de longe o que um pai quer para os seus filhos. Você já é maior, responde por seus atos diante da justiça dos homens, mas diante da justiça de DEUS a responsabilidade é minha até você ter uma aliança aos pés dEle com aquele que o Senhor te colocar para ser o sacerdote da sua casa.
Nesta hora de aflição, choro e tristeza, tudo o que eu não queria que você passasse pelo que está acontecendo e não é fácil. Você é jovem e tem uma vida inteira pela frente e não tinha porque passar de novo pelos mesmos problemas e sufocos que eu e sua mãe passamos, muito menos dizer para que eu não me metesse na sua vida e coisas do gênero.
A Bíblia diz que o filho pródigo gastou toda a fortuna que tinha dissolutamente, ou seja, farreou tudo o que o dinheiro que tinha podia lhe dar e quando acabou procurou os “amigos”, eles lhe viraram as costas, foram embora e ele sem ter nada para comer foi tentar a sorte numa fazenda dando de comer aos porcos e nem assim conseguia comer e ele desejou comer aquilo que era a sobra de tudo. A sua humilhação foi tanta que ele desejou ser um humilde empregado do pai do que ser um bom empregado do mundo e comer resto de comida.
Filha, eu te amo e vou continuar orando por você para que DEUS toque no seu coração e você sinta que a sua família e seus verdadeiros amigos sofrem junto contigo de coração partido. Sei que a vida é feita de escolhas e a sua não foi,com certeza,a certa, mas foi você quem decidiu.
   Seus pais estarão sempre ao seu lado para te apoiar nas decisões certas, tentar te mostrar , como agora, quando você estiver errada e te levantar quando você tropeçar.
Lembre-se: coração de mãe não diferencia filhos, coração de pai quer sempre protegê-los e está sempre preocupado com cada um deles, mas é limitado e pode falhar, entretanto o coração de DEUS é sempre pronto para receber aquele que se arrepende do seu erro e volta de onde errou, pede perdão por seus erros e segue em frente.
Força filha

Nós te amamos