sexta-feira, 14 de maio de 2010

Conversão



A direção era para um lado da pista da vida e de repente houve uma guinada. Muda tudo, troca de faixa, faça a conversão. Pirei? – Não me converti.
Tinha tudo para dar errado; perdi os pais cedo, os parentes próximos não me queriam, a família adotiva não tinha condições econômicas, mas tinha muito amor e carinho e isto foi fundamental. A infância foi tranqüila e normal como a de toda criança, a adolescência marcada por fatos comuns à realidade que nos cercava e o amor e carinho da família superava tudo. Saíamos quase sempre junto, mesmo que fossemos para lugares distintos. O passar dos anos acumulou experiências diversificadas e lembranças arraigadas dos sorrisos e alegrias (muitos) e de tristezas e fracassos (poucos).
As festas regadas a cerveja já não tinham tanto brilho, a fumaça do cigarro incomodando ainda mais, os sons já começando a ficar diferentes, já não entrando tão fácil na alma, mas ,as amizades sim ficaram. Amigo a gente não esquece, cuida deles quando estão feridos, machucados, magoados, distantes, desmotivados, pra baixo, enfim, amigo é amigo.
Eu sempre tive um grande amigo; conversava com ele desde pequenino (principalmente quando estava triste por alguma coisa) na beira da praia, vendo o mar, o horizonte, o gigante deitado (Nicty City do outro lado da poça), em cima da laje, na beira da Lagoa, no Parque Lage, Quinta da Boa Vista, Jardim Botânico, ônibus, trem, metrô... e ele me ouvia calado ficava triste quando eu quebrava a cara com algum relacionamento amoroso, ou era demitido de um emprego, ou fazia alguma coisa que desagradava os mais velhos, enfim...
Meu amigo ficou comigo em cada momento naquela estrada que parecia não ter fim até pousar na terra que ele havia conhecido há muito tempo para que eu viesse morar e ser feliz. Ele esperou muitos anos para falar comigo e poder dizer tudo o que ele sentia por mim todo esse tempo. Amigo fiel, verdadeiro, paciente, bondoso, não foi ciumento em nenhum momento (e olha que eu achava que havia encontrado outros amigos), não teve soberba enquanto o procurava sem saber como, me suportou muito tempo até que realmente eu o conheci. Achava que O tinha encontrado numa igreja, mas foi no meio de um show, puxando e dançando uma coreografia que de repente todo o som a minha volta desapareceu. Parecia filme sem áudio, eu via tudo, todos, os movimentos, os cheiros, os toques, os esbarrões, mas nada ouvia a não ser a Sua voz suave a dizer: - O que é que você faz aqui?
O susto que tomei ao perceber que era a voz que há muito tempo falava comigo foi imediato, parei tudo, baixei a cabeça, as lágrimas pulularam e saí dali soluçando como uma criança. Eu havia ferido o meu amigo e ele não brigou, esperneou ou falou mal, tão somente me perguntou suave, mas foi tão forte que até hoje eu me lembro disso.
Nunca mais deixei o meu melhor amigo e nem quero magoá-lo mais como fiz antes. Meu amigo morreu, acusado de um crime que não havia cometido, não falou nada, somente pediu ao seu pai que nos perdoasse por não sabermos o que estávamos fazendo. No dia da sua morte, houve muitas pessoas que se alegraram por ter seus entes queridos de volta depois de terem dormido e muitas que não entenderam o que estava acontecendo, alguns que andavam
com ele o abandonaram na hora de sua morte e só a sua bondade para perdoá-los. Meu amigo hoje está vivo em meu coração e conversa tanto que tem horas que acha que estou ficando louco. O nosso papo é tranqüilo, eclético, didático e sempre muito aberto. Falamos sobre tudo e todos e ele sempre usa alguém para me corrigir nas falhas e me apoiar no sucesso. Gosto de escrever sobre ele e principalmente falar daquilo que ele me ensina a todo instante. Agradeço a DEUS pelo fato dEle me dar um amigo fiel. Ah ! já ia esquecendo, meu amigo se chama JESUS e é por isso que Ele me conhece a tanto tempo e esperou o tempo certo para falar comigo e se apresentar.

Amigas

Dizem que há amigas inesquecíveis, amigas quase irmãs que nunca saem do coração.Há também aquelas que queremos escrever sobre elas e não sabemos como, de tão especiais que são. Há quem diga que garotas, quando são amigas, ficam insuportáveis (fazem até filmes sobre isso), porque concordam sempre uma com a outra e não se desgrudam. Há quem diga que as garotas brigam,discutem, se desentendem, mas nunca deixam de ser amigas. Têm amiga que passa com você o momento mais difícil da sua vida e o mais feliz também. Há aquela que liga todo dia, aquela que abraça em silêncio e sente você chorar, Aquela que pula de alegria quando você tem uma boa notícia pra dar e compartilhar. Há aquela que ouve quando você está apaixonada e passa horas falando do mesmo assunto. Tem também aquela que apóia as suas loucuras, depois se arrepende junto. Há aquela que defende você de tudo e de todos e aquela que é como uma irmã pra você.E não têm como esquecer da Melhor Amiga, aquela que é simplesmente aquela pessoa que nunca esquecemos. Mas o poeta disse algo para marcar ; " Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração..."

terça-feira, 11 de maio de 2010

VENTOS



Ventos serenos são para amigos
Brincarem com suas pipas e papagaios
Caçando suas pipas ao léu

Ventos suaves para os românticos
Apreciarem o frescor de sua brisa
Balançando o véu

Ventos furiosos para os céticos
Que não acreditavam na Natureza
E foram para o beleléu

Ventos do Avivamento para os que crêem
Que há esperança e fé no Céu

SE QUISER

Se quiser falar, fale
Se quiser gritar, grite
Se quiser se expor, exponha-se
Se quiser mostrar, mostre-se

Mas,

Seja discreto,
Veja o que o mundo oferece
Veja as pessoas falando, se abrindo
Se explicando, se doando

Observe...

Seja dono do seu silêncio
Sem se deixar vulgarizar
Não seja prisioneiro das suas palavras
Seja sábio,

Olhe pra cima
Para o alto
Aprenda a lição
Da crucificação

Seja você

quinta-feira, 6 de maio de 2010

INAUGURAÇÃO


Fazia calor naquele dia 1 de maio e a comunidade estava em festa: a bica fora substituída por uma caixa d’água bem no alto do morro e quase toda casa tinha seu próprio encanamento, as exceções ficavam no lado do Beco da Virada onde os barracos eram feitos ainda de estuque e alguns madeira e as pessoas, a maioria de catadores de papelão e adjacentes, não tinham renda suficiente para pagar mensalidades dos impostos por menores que fossem, muito menos comprar material de alvenaria para construírem suas casas; o Sr. Engenheiro que fizera o projeto estava de terno, coisa rara para quem sempre o vira de jeans e camiseta pólo; o presidente da Associação era só sorrisos e o povo só alegria. O Primo, se encaixando como mestre de Cerimônias, perguntou com aquele ar de meio deboche e meio sorridente por não ter que ficar mais na fila esperando a vez de lavar as suas roupas do salão e nem ter que pagar pros meninos encherem seu barril: - Tá boa santa? Dependendo de como era feita esta pergunta a reação era sempre de indignação quando o Primo falava. Ele parecia aquele tipo saído d’O Cortiço : um sujeito magro, alto, fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e com uma franjinha,(alguns anos depois começaram a chamar isso de Emo) que lhe caia, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era cabeleireiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era sempre o Primo quem tratava de reconciliá-los, exortando as mulheres à concórdia. Detestava o nome - Pelópidas_ herança do avô militar que lutara na 2ª Guerra Mundial e fora o único militar de patente na história da família. Todos só o tratavam e chamavam de Primo e era maneira mais fácil dos machos de plantão não se envolverem diretamente com ele. - Não e Sim!? A resposta da Nenenzona do Piteco foi imediata. Ato contínuo sacou a Bíblia da bolsa e disse, dirigindo-se ao microfone, com um ar resignado de quem já não tem mais esperança de nada: - Primo, hoje faz 4 anos que o Piteco se foi e ele sempre lutou para que a gente tivesse água, luz e uma morada digna, mas DEUS sabe o que faz, né? Me levou ele e ficou a felicidade de ver o sonho dele realizado hoje. Tô feliz por isso e triste por ele não estar aqui pra ver. - Que é isso amiga? Se alguém não se lembrar do Piteco hoje, eu vou rodar a baiana e falar muito porque ele foi o cara. Deixa comigo! - Tá bom, só não faz escândalo que eu não agüento! - Tchau ! No discurso do presidente da Associação o primeiro nome lembrado foi o do Piteco, sua luta pela valorização dos moradores, o orgulho quando a Bateria de Lata desfilava pelo morro fazendo algazarra e alegria da meninada, a preocupação com a educação das crianças, o desespero que ele ficava quando via um jovem perdido pro tráfico de drogas, motivo que levou sua vida. Tudo isso foi lembrado. Até quando se fazia fila pra estar na vez da bica e encher os barris em cada casa foi motivo pra muita gente verter umas lágrimas escapulidas. O Presidente não esqueceu as lutas daquele povo sofrido, trabalhador e sobretudo discriminado pela sociedade que servia, era declaradamente uma luta social desigual que começava a ser minimizada por aquela ação social. O Sr. Engenheiro lembrou das dificuldades do começo da obra quando “sumiam” alguns materiais e como teve que fazer várias reuniões na Associação para explicar que se o material sumisse a comunidade iria ficar pra trás das outras sem sua água encanada. A festa foi linda. Os fotógrafos do jornal comunitário( pensa que é só no asfalto que tem jornal é?) se espremiam para poder tirar uma foto do Governador que naquele ano eleitoral não iria perder uma oportunidade dessas. Depois dos festejos e quando todos foram pra casa, podia se ouvir aqui e acolá uns gritos de algumas mães: - Menino, pára de brincar com a água, ‘cê num sabe quanto demorou pra chegar até aqui em casa não!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

40 DIAS

40 dias fora de casa
40 dias fora de rumo
40 dias fora da rotina
40 dias de férias

Acordar, abrir a janela do quarto pela manhã
E perceber que o sol nasceu em outro ponto
Tomar café já servido, sair da rotina
Ter o tempo livre

Sair sem conhecer o destino, tendo o mapa como guia
Descobrir novos locais, pessoas, culturas
Sorrir, brincar, divertir toda hora
Andar devagar, correr por brincadeira
Rolar na grama, pular na água
Furar a onda, tomar um ”caldo”
Ver os fogos de fim de ano, ouvir as músicas
Festa de aniversário, churrasco em família
Bate papo, lembranças, previsões, fotos
Imagens gravadas na mente
Pra sempre

DIA A DIA

Toca a sirene
Chegou o pessoal
É hora do café
- Entra na fila animal!

Bate o cartão e vai para a seção
Calça a luva, confere o crachá
O dia a dia da fábrica vai começar

Levanta a porta
O responsável legal
Todo mundo espera
Pelo seu sinal

O comércio inicia
Também novo dia
Esperando clientes
Ansiosos, nervosos ou complacentes

Na obra a conversa gira em torno da chuva
Que cai sem cessar
Deixando todos a observar

É hora do almoço
Que hora feliz
- Ei, não fura a fila!
- Tô querendo comer também!

No escritório parece
Que a hora não anda
A secretária reclama
O café que não vem

Termina o dia
Para casa se vão
Uns antes para a escola
Outros para a estação

Descanso gostoso
Para um novo dia
Que se quer maravilhoso
Para uma nova rotina
Trabalho, trabalho, trabalho
Emprego, bico, quebra-galho
O nome sempre varia
Para quem trabalha dia a dia

Trabalhador sem nome ou cor
Trabalhador sem escolaridade ou doutor
Carteira assinada não tem hierarquia
Todos querem se aposentar um dia

Uns com mordomia, outros não
Uns com regalias, outros com obrigação
Uns com aposentadoria, outros com reles pensão
- Trabalhador, trabalhador, não esquenta não!