segunda-feira, 5 de março de 2012
A lua não bronzeia !
A lua não bronzeia!
Coisa doida né? Mas era verdade, os pulos no riacho à noite, as saídas galopando o alazão pelos campos e agora tudo começava a fazer sentido. Descendente da pluralidade brasileira, e por essa razão a pele branca também era herança materna, fruto dos avós italianos radicados naquela terra quente, diferente das outras famílias imigrantes, mas muito melhor que aquela Toscana da qual nasceram e cresceram passando frio e necessidades.
Agora ali sozinha, já sem a companhia dos pais amados, falecidos com intervalo de dias um do outro e longe dos irmãos já casados e morando em outras cidades, estava a contemplar a lua cheia e a claridade do ambiente quando se deu conta de uma coisa: A lua não bronzeia!
Tinha mania de andar em pelo noite afora. Não gostar de usar roupas à noite foi costume herdado da mãe que gostava de ficar assim dentro de casa quando caía a noite e todos os empregados da fazenda iam para suas casas na entrada, deixando a casa principal solitária parecendo um museu. Agora, sozinha na imensidão do sítio herdado dos pais era a única forma de manifestação de sua revolta contra aqueles ditadores da moda. Quem foi que disse que devemos nos cobrir todo o tempo? Ali já era quente todo o tempo, o vento quente vindo do agreste já queimava a pele durante o dia e ainda por cima tinha que usar umas roupas compridas que não combinavam com seu estilo de agir ou pensar.
Seus pensamentos vagavam em meio às lembranças daqueles bate papos infindáveis com o pai – uma espécie de Professor Pardal de tantas invenções malucas- e entremeados pela mãe professora.
Pensamentos, pensamentos e pensamentos … faltava alguém para dialogar, trocar ideias, conversar sobre aquilo tudo. Os seus companheiros inseparáveis eram os livros de diversos assuntos que enchiam a biblioteca e de orgulho o pai. Lembranças boas de infância, adolescência e maioridade. Saudades da correria entre os irmãos e do falatório ao mesmo tempo na mesa como uma típica família italiana com sangue brasileiro. Aventuras, medo, ambição, riqueza, tensão, romance, poesia, amor, liberdade , enfim tantos assuntos que só um supercomputador como o nosso cérebro para armazenar tantas informações.
Lembrou-se de uma manhã quando eles estavam tomando café no alpendre e ela avistou uma borboleta caída na entrada, na sua inocência pensou em dar-lhe um banho para revigorá-la ou limpá-la sendo dissuadida pelo pai que explicara a necessidade delas de superação , já que acabara de sair do casulo e fora levada até ali pelo vento. A paciência daquele momento e o olhar tranquilizador nunca lhe saíram da memória. A mãe sempre lhe dizia que deveria escolher a pessoa certa para se casar e não se entregar ao primeiro que aparecesse fazendo ofertas e promessas variadas de felicidade, o conselho foi levado a sério durante muitos anos.
A lua não bronzeia!
É isso mesmo, ela me dá liberdade para ir onde quiser, como quiser e ainda me esconde dos olhares perniciosos daqueles pervertidos e metidos a moralistas que moram na cidade. Saco! Faço o que quero e não tenho que dar satisfação para ninguém, sou sozinha exatamente por isso e estou muito bem obrigada, dizia pra si mesma.
A lua não bronzeia e não tem contra indicação.
Liberdade!
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